30 de maio de 2014

SEPARAÇÕES


Esta é décima Copa do Mundo que acompanho "pra valer", pois a de 74 só me vem à cabeça em forma de imagens dispersas e a de 70 é de uma época em que não há vestígios de nada na minha memória (antes dos cinco anos de idade).
Assim como muitas pessoas de minha geração, fui da empolgação com o evento na infância e adolescência até o desencanto das últimas edições. No meu caso, as doze badaladas que transformaram a carruagem em abóbora foi a percepção de quanto os interesses financeiros dos organizadores do evento (FIFA, Nike, Coca-Cola, TV Globo etc.) se tornaram mais importantes e determinantes que o esporte em si. A criminosa escalação de Ronaldo Fenômeno em 98, depois do jogador sofrer uma crise nervosa no vestiário, foi uma decisão dos departamentos de marketing que financiavam o atleta, por mais que tentem esconder o sol com a peneira. Quem deveria de fato decidir (a comissão técnica e seu departamento médico), teve que se submeter à desumana lógica dos cifrões. O resultado foi um jogo estranho, uma derrota que poderia ser evitada e a sensação de traição agravada pela recusa da confissão, fato que por si tem o desastroso poder de abrir uma ferida que só aumenta de tamanho até levar o paciente à morte. Pior ainda seria se perdêssemos para sempre um atleta no auge da carreira.
De lá para cá, sempre acompanhei os jogos, futebol ainda é meu grande fascínio em matéria de esportes, mas o afeto e a paixão esfriaram, entraram em crise, a ponto de nos divorciamos - eu e a seleção brasileira. Mesmo com uma tentativa de reconciliação, devido às intervenções do Ronaldo Renascido e de Rivaldo, em 2002, a vaca foi para o brejo, a casa caiu, e foi um pra lá outro pra cá. Confesso que cheguei a desejar sua derrota nas últimas edições, coisa de ex-marido ressentido, fazer o quê?
Mas a seleção não é só minha, há outros 200 milhões de amantes a me substituir e penso, amargamente, que ela sequer sentiu minha falta. Nos últimos encontros com ela, ficava de longe, olhando seus altos e baixos, dizendo para mim mesmo com repugnante despeito: "eles estão se divertindo com ela, mas ela já não é a mesma que conheci, já não tem o brilho e a beleza da minha época, pobres infelizes". A ocasião faz o ladrão, dizem por aí, mas também os canalhas.
A julgar pelo que os meios de comunicação divulgam, a velha amante anda meio abandonada, milhões de namorados viraram subitamente as costas para ela, muitos ameaçam agredi-la quando a encontrarem na rua. Jamais havia imaginado isso.
Mas eu conheço o poder de sedução dessa Vênus de chuteira e meiões. Quem já experimentou o delírio de suas carícias, sabe que não é fácil ignorá-la, ainda mais quando ela ensaia olhares sugerindo a promessa de outros êxtases. 
Para meu espanto, quando pensava que nosso caso já estava para lá de consumado, uma centelha se acendeu, meio que do nada. Coisas que só os velhos apaixonados são capazes de entender, mas não de explicar. 
A sensação que tenho é que a festa nos forçará a ficarmos próximos de novo, e não apenas eu, mas todos nós, amantes distanciados, dançaremos juntos, brindaremos, lembraremos os velhos tempos e seremos felizes, pelo menos por algumas semanas. E pouco ligaremos se o final será, dessa vez, feliz de novo.

8 de maio de 2014

AS CORES DA VIOLÊNCIA

É preciso distinguir A de B. Sempre. 
O linchamento do Guarujá se difere dos milhares que os antecederam na nossa triste e truculenta história devido ao poder midiático de suas imagens se espalharem nas redes sociais sem a filtragem tradicional da antiga imprensa (que não exibia as imagens, e quando o fazia editava as cenas para não chocar tanto, além de não haver - na época pré-web - a possibilidade de se rever a qualquer momento o vídeo). Em vários outros aspectos ele é idêntico aos ocorridos nos anos 20, 40, 60 etc. 
O sadismo que promove o ato do linchamento em si, se espalha agora nas páginas eletrônicas e alimenta uma cultura da perversão em forma de visualizações, curtidas e comentários (sempre espantosos).
As causas desse tipo de violência têm suas raízes no fascismo do senso comum, no desejo de promoção de justiça muitas vezes provocado pela injustiça reinante no cotidiano das massas pobres, na introjeção dos discursos agressivos propagandeados por programas televisivos e radiofônicos, na intolerância de todo tipo devido à baixa promoção do real respeito às diferenças (que é substituído astuciosamente pelo respeito somente a algumas diferenças e em alguns lugares e não a todas e todos) e onde mais se quiser procurar.
Inevitavelmente me vi pensando também sobre outras coisas. Por exemplo, se Fabiane Maria de Jesus fosse preta (termo usado pelo IBGE), choveriam acusações de racismo, sendo que por racismo entendo o ódio manifesto por pessoas de uma raça específica, o que é diferente de preconceito de cor, repulsa a pessoas de determinadas cores, em geral, por tais cores serem associadas a classes econômicas baixas e a moradores de áreas periféricas. Até estranhei o fato de haver poucas acusações de que se trata de um caso de machismo, já que a vítima é uma mulher. O que quero dizer é que reduzir um ato complexo a uma causa única (racismo, machismo etc.) não ajuda em nada a compreender os reais motivos que geraram tal ato e, por conseguinte, não ajuda também na criação de mecanismos de prevenção de futuras violências, uma vez que se atacam causas paralelas e não as centrais. 
Esclarecendo: há racismo e machismo em nossa sociedade, muito mais do que imaginamos. Mas é preciso identificar exatamente onde, quando, como, por que e com quem isto acontece. O uso do raciocínio mecânico e míope das militâncias superficiais, ou seja, daquelas pessoas que transformam lutas históricas e fundamentadas em dogmas obscuros e slogans oportunistas, só faz aumentar as divergências, antagonismos, intolerâncias e isto inevitavelmente descamba em algum tipo de violência.
Outras fabianes virão e a mídia, que tanto parece se indignar com tais fatos, finge-se de desavisada e não assume sua função pública de informar, esclarecer e promover debates civilizados sobre os destinos da sociedade. Talvez o fato de tais atos de violência serem explorados e capitalizados por esta mesma mídia indignada explique o porquê desse incômodo silêncio. 

7 de maio de 2014

A COR DA NOTÍCIA

Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO
Os manuais de redação do grandes jornais sempre se preocuparam em zelar por um padrão de linguagem jornalística que fosse ético, civilizado, formal (sem ser pedante) e respeitoso com a variedade de leitores que forma seu público. 
Na era digital, algo novo aconteceu: o número de 'curtidas' e comentários sob as notícias passaram a funcionar como moeda simbólica, ou seja, passaram a ser capitalizadas de tal modo que quanto maior o número de comentários maior o 'sucesso' da publicação e do consequente potencial de merchandising da página. 
A consequência disto foi o fato de que não há qualquer tipo de controle sobre os comentários. Todo tipo de mensagem postada fica lá, para mostrar aos anunciantes o potencial da página. Por este motivo, os comentários viraram o registro mais absurdo, cruel e perigoso do universo da web. Qualquer notícia, a mais banal, é motivo para troca de insultos, para exibição de intolerância, para manifestação de selvageria verbal e ameaças de todo tipo. 
Em nome da 'liberdade de expressão', um eufemismo para 'vale tudo pela audiência', abre-se espaço para uma arena de ódio e violência e cria-se uma cultura da animosidade e do fascismo digital. A imprensa não pode, diante disso, fingir que não tem sua parcela de culpa e de responsabilidade. 
Esta semana fiquei mais surpreso ainda ao ler em uma página da tradicional Folha de São Paulo um parágrafo em que palavrões são registrados na íntegra.
Não cabe aqui discussão sobre o moralismo que determina e reprime o calão, mas é fato que a ética jornalística primava pela sensibilidade moral de seus leitores. 
Agora fica a dúvida: foi um descuido de redação (que poderia substituir a palavra por uma versão cifrada, com aqueles símbolos aleatórios) ou estamos diante de uma nova era do linguajar jornalístico? 
Até o século XX, denominavam-se de marrom ou sensacionalista os jornais que se dirigiam às camadas operárias e às massas urbanas ou os que adotavam o apelo à violência explícita, ao sexismo e à vulgaridade do mundo das celebridades. Será o marrom a cor da imprensa do XXI?

1 de maio de 2014

A POLÍCIA DO PENSAMENTO

Esta semana foi pautada por dois fatos ligados ao preconceito racial: a banana jogada para Daniel Alves e as declarações do executivo da  NBA, Donald Sterling. 
Fonte da imagem: http://www.framingthedialogue.com/archives/thinkpol-think-poll/
O primeiro caso deu no que deu. Uma ação para lá de condenável, flagrante crime de intolerância, foi respondida à brasileira por Daniel Alves e gerou um slogan bacana (por sua ousadia, pela carnavalização e pela dialética da reação): "somos todos macacos". Mas o que poderia em outras épocas soar como marco de uma nova etapa na relação com os atos de racismo chafurdou no pântano do oportunismo, do pseudo-ativismo e da cada vez mais presente domesticação midiática. O que fica do episódio não são seus aspectos positivos, mas  justamente o seu lado farsesco e deletério. Lamentável.
O segundo caso me deixou ainda mais perplexo. O executivo expressou uma postura racista? Claro que sim. Isto justifica sua condenação pública, penal e econômica (multa de  2,5 milhões de dólares!)? Aí já cabe discussão. Por quê? Ora, pelo que entendi, o que ele falou foi em uma conversa privada com sua namorada. E isso faz toda a diferença.
A maioria das pessoas - acredito eu - discorda de Sterling, quando ele diz para sua namorada que não acha certo ela postar fotos ao lado de negros (Magic Johnson, no caso) e pede para que ela não leve negros para os jogos (pelo que entendi, especificamente para a área reservada ao executivo). Esta atitude é, sem dúvida alguma, preconceituosa e condenável. Mas - aí entra a questão central - uma pessoa deve ser proibida de pensar assim no plano privado? O pensamento racista - enquanto pensamento, ideologia e não manifestado publicamente, nem praticado contra outrem - deve ser motivo de penalização? Será que devemos ser condenados pelo que pensamos? 
O que ainda me incomoda mais é que o site (TMZ) que divulgou o áudio da conversa particular sequer é motivo de questionamento. Como o TMZ teve acesso ao áudio? Este acesso foi feito de forma legal ou ilegal? É correto e legal divulgar uma conversa particular?
Insisto: Sterling é uma pessoa que pensa de um modo com o qual eu discordo profundamente, mas eu não acho que temos o direito de punir as pessoas que "pensam" coisas que achamos condenáveis moralmente ou eticamente. 
Se a polícia do pensamento (Orwell ficcionaliza isto em 1984) for consentida e oficializada pela sociedade, estaremos entrando em uma etapa de totalitarismo travestido de democracia que implicará em graves consequências. 

24 de março de 2014

MARCHAS PRA QUE TE QUERO

Dia 22 de março de 2014, 50 anos após o evento que ficou conhecido como Marcha da Família com Deus e Pela Liberdade, aconteceram em algumas cidades brasileiras uma reedição das marchas de 64. 
Em linhas gerais, o número de participantes foi baixíssimo, sendo que São Paulo [leia texto sobre  a Marcha em SP - do Blog da Cidadania] conseguiu arregimentar o maior número de participantes, de 500 a 700 pessoas, dependendo de quem olha e conta, claro. Mas para uma cidade cosmopolita e gigantesca como São Paulo, 1000 pessoas é quase nada. Ou, se quiserem, muito pouco.

VÍDEO SOBRE A MARCHA EM SÃO PAULO (do Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães)

Há um lado sinistro, deplorável, desanimador de tudo isso, se levarmos em conta, por exemplo, o fato de os manifestantes irem às ruas pedindo intervenção militar, deposição da presidente Dilma, defendendo um possível golpe militar com a frágil desculpa de que assim estaríamos "moralizando" o país. Nada mais anacrônico, reacionário e grotesco que tais pontos de vista. 

10 de março de 2014

SOB A NÉVOA DA GUERRA: ONZE LIÇÕES DA VIDA DE ROBERT S. McNAMARA


Robert McNamara participou da Segunda Guerra Mundial, foi presidente das indústrias Ford e Secretário de Defesa nos governos John Kennedy e Lyndon Johnson.
Figura polêmica e extremamente influente, McNamara participou ativamente e teve papel de destaque (e de decisão) em vários conflitos marcantes no século XX: a Segunda Guerra Mundial, os mísseis em Cuba, a guerra no Vietnã dentre outros. 
Em depoimentos francos e emocionados (mas cauteloso ao extremo), McNamara dá sua versão dos fatos, assume seus erros, justifica-se e procura mostrar ser coerente, eficaz e patriótico.
Se para alguns o estilo pró-entrevistado pode incomodar, para outros o documentário se destaca pela importância da figura pública e pelo modo quase didático com que os fatos e os argumentos vão sendo revelados.
Ótimas imagens, montagem segura e uma trilha sonora de qualidade fazem deste documentário uma obra que merece ser vista e revista.


FICHA TÉCNICA:
Gênero: Documentário
Duração: 95 minutos
Direção: Errol Morris
Música: Philip Glass
Ano de Lançamento: 2003
Filme vencedor do Oscar de Melhor Documentário

4 de dezembro de 2013

DOCUMENTÁRIO: O HOMEM PRÉ-HISTÓRICO: VIVENDO ENTRE FERAS (4 partes)

Este documentário (em quatro partes) faz uma série de especulações baseadas nos conhecimentos científicos acerca dos agrupamentos humanos pré-históricos. Procura  mostrar como as descobertas e invenções da pedra lascada e do fogo, por exemplo, proporcionaram saltos enormes no desenvolvimento da espécie e no domínio da natureza.


30 de novembro de 2013

AS MADRES TERESAS DE CONDOMÍNIO


Se tem uma coisa que a classe média urbana desconhece, na qual é completamente ignorante, é o tal do “povo”. E é preciso colocar essa palavrinha entre aspas porque ela em si não quer dizer coisa alguma. Por povo, ali, deve-se entender a multidão de pobres e trabalhadores de baixa renda espalhados pelos Brasis de cima a baixo.
O termo “povo” é uma dessas palavras-bombril, tem mil e uma utilidades, mas seu valor é de uma inconstância terrível, variando da positividade emotiva de “somos um povo alegre” até a negatividade mais rasteira da atemporal “o povo não sabe votar”. E ainda tem um detalhe: no primeiro caso, o povo somos “nós”, no segundo, são “eles”.
Mas eu falava da burrice da classe média urbana em matéria de povo e vou explicar. O indivíduo que mora em apartamento e estudou em escolas caras só conhece o tal de povo pela telenovela e pelo telejornal, nas crônicas do Jabor e nos bons-dias e boas-noites que dá para o porteiro. Nada mais artificial e enganador para entender o tal do povo do que observá-lo nesses lugares. Na TV e na imprensa, o povo aparece como um bando de imbecis alienados, festivos em dia de jogo de futebol, trágicos na entrevista após as enchentes ou ridículos quando explorados em programas de auditório. Mas esta versão fictícia agrada em cheio à mentalidade do homem ilustrado, porque este precisa desesperadamente se sentir diferente do tal do “povo em negativo”, precisa se sentir mais inteligente, informado e civilizado. Para atender essa fantasia classista a que precisa se agarrar como o náufrago no pedaço de pau, a imprensa e a indústria do entretenimento fabricam suas caricaturas para consumo do bom burguês.
Mas tem também o classe média sensível e “cabeça”, que diz adorar o povo, entendê-lo e ajudá-lo (só esquece de perguntar se o dito povo está interessado em sua ajuda). Para este ser de espírito elevado o pobre é um coitadinho, uma vítima do sistema, um mendigo de tudo: dinheiro, cultura, bom gosto, bons modos. Outra balela. No seu afã de praticar boas ações ele se junta a outros comovidos filantropos e vai em busca do zé povinho. Alguns ofertam sopa e cesta básica e vão dormir aliviados, outros acham que levar balé e orquestra para a favela é a maior das gentilezas. Nada mais ofensivo, arrogante e autoritário do que achar que o que o pobre precisa é ouvir Tom Jobim ou Vivaldi para virar gente. Na cabeça esfumaçada da classe média urbana, além das confusas noções que ela tem de liberdade e conhecimento, fermenta a ideia de que o que o povo mais almeja na vida é morar no apartamento em que ela mora, estudar em sua escola, comer no seu restaurante e ver os filmes que ela vê. O ser urbano imagina que tudo o que o pobre quer é virar ele também um classe média. Nada mais equivocado que isso.
O pobre quer mais dinheiro sim, quer mais conforto, quer mais comida, diversão e arte, como diz a música. Mas não a comida a diversão e a arte que são servidas ao pequeno e grande burgueses. O pobre não quer morar no condomínio de luxo, não quer ir ao teatro assistir ‘stand up’, não quer ouvir Ivan Lins. Mas o aburguesado sensível não sabe disso e na sua fantasia apalermada de madre Teresa de Calcutá humilha, ofende, engessa e rebaixa o pobre com seus eventos, projetos, com sua retórica de almanaque e sua generosidade inútil. 

26 de outubro de 2013

RUMOS DO SÉCULO XXI

Talvez estejamos mesmo atravessando a fronteira que separa a Idade Moderna (ou Contemporânea) de uma Nova Era. O mundo marcado pelo humanismo, antropocentrismo, racionalismo e pela predomínio das democracias liberais tem dados sinais de que está prestes a ruir, pois muitas de suas bandeiras veem a cada ano perdendo sentido, prestígio e sendo questionadas ou substituídas por outras. 
O mundo que gerou um tipo específico de comportamento social, familiar, religioso, cultural, político, econômico, estético, moral... praticamente não existe mais, o que resta dele são sombras, memórias e rituais que cada vez mais soam inoportunos ou inadequados. 
As reações que se levantam hoje contra as novidades na medicina, na tecnologia, na política, na mídia, podem ser percebidas como sintomas desse mundo antigo que não aceita ser substituído por seu sucessor.
Se você pretende viver sem preocupações e aborrecimentos, então esteja preparado para implantes de chips e ultravigilância pessoal, comércio legal de órgãos humanos, banalização da sexualidade (sem erotismo), ética narcísica, democracia totalitária (é, isto é possível), demonização da família nuclear, fascismo de grupos institucionalizados etc. etc.
Aos últimos dos humanistas, meu saudoso adeus, aos novos habitantes do planeta Guerra, divirtam-se.

SINTOMAS DA FRONTEIRA ENTRE ERAS:



18 de outubro de 2013

MASSAS ACÉFALAS?



Os protestos de junho geraram uma infinidade de interpretações. Para alguns, houve ali uma revolução radical, para outros, tudo não passa de um ato de rebeldia juvenil sem causa, há ainda quem vê fascismo, alienação, comportamento de ultra-direita...
De fato, como são múltiplas as reivindicações, algumas pontuais outras vagas, como são diversos os grupos participantes, de neo-anarquistas ao chamado "lumpesinato", é mesmo difícil dar uma única explicação para os acontecimentos. E como somos desejosos em atribuir uma causa e um sentido para as coisas, ficamos aturdidos diante de tantas causas e sentidos ou, pior ainda, da ausência deles. 
Mas uma coisa é preciso ressaltar: a manifestação violenta de populares não é algo novo, ela é recorrente nos países ocidentais há muito tempo, principalmente a partir do século XVIII, em que a concentração gradativa de grandes massas nas cidades e a progressiva experiência política foram desenvolvendo uma espécie de pedagogia do uso do espaço público. 

30 de setembro de 2013

INFÂNCIA (TEXTO GRÁFICO)

Nos anos 80 eu fiz algumas experiências com os fanzines e zines. Uma das que mais gostei foi o "Diário", narrativa lírica que se casava com ilustrações que reforçavam ou complementavam o conteúdo. 
A web fez o suporte zine perder um pouco sua finalidade e todo mundo começou a migrar para os blogues e redes sociais.
Este ano resolvi dar continuidade àquela experiência, mas agora fazendo uso de ferramentas digitais. Daí surgiu este "Infância", texto gráfico feito em Power Point, salvo como pdf e postado usando o PageFlip. 
A ideia é continuar experimentando e ver até onde se pode ir.

PARA LER "INFÂNCIA", CLIQUE AQUI (Page Flip).
PARA LER NO CALAMÉO, CLIQUE AQUI.

SOBRE OS DISCURSOS CONTRA O PRECONCEITO

Universidade de Yale (fundada em 1701), Connecticut, EUA.


Em uma notícia de hoje (30/09/2013), no Estadão, sobre a prisão da jornalista brasileira nos EUA, o jornal reproduz comentários de Laurentino Gomes. A fala dele, na minha opinião, reproduz algo que me incomoda nos discursos sobre preconceito, pois ele faz afirmações e alusões sobre a prática da xenofobia a partir de impressões, de experiências acumuladas no passado, de uma constatação generalizada. Mas acontece que o caso em si, analisado em seus detalhes, não nos permite afirmar que houve, como ele diz, preconceito óbvio contra estrangeiros. Esta afirmação pode ser, no máximo, uma suposição (suposições são impressões, subjetividades), mas daí já sair rotulando o episódio de xenofobia é muito mais a afirmação de um dogma do que a reflexão sobre o ocorrido. 

24 de setembro de 2013

GOSTO PELAS PALAVRAS

RESUMO: o texto abaixo é uma resenha do livro Emoções Selvagens, da poeta Eliane de Lacerda. O lançamento do livro ocorreu no dia 23 de setembro, na livraria Veredas (Volta Redonda - RJ).

Gosto Pelas Palavras: uma leitura do livro Emoções Selvagens

            Emoções Selvagens é o quinto livro da poeta Eliane de Lacerda. Se considerarmos que a produção da poesia local tem vários fatores que forçam seu encolhimento, uma vez que se está fora do eixo Rio-São Paulo e distante das editoras e dos formadores de opinião, a publicação de cinco livros por uma autora de Volta Redonda é, por si só, um fato pouco comum e bastante louvável.
           
Não é difícil entender o porquê disso. Eliane de Lacerda é uma pessoa para quem a palavra, a literatura, a poesia são elementos vitais, são parte inseparável de sua vida, de sua sensibilidade. Como os versos de Alma do Poeta afirmam, “Escrevo porque as palavras atropelam-se em minha mente tenho / tonturas / vertigem alfabética, sou simples e poeta”. Esta “vertigem das palavras” é a pista para entender esta produção tão vasta.
            O livro é composto por 50 poemas e 33 crônicas. Além de sua produção em versos, agora a autora trilha os caminhos da prosa (por meio do gênero crônica), e nelas se percebe a presença dos temas e da sensibilidade recorrentes na obra da poeta. Mas que características seriam essas? Quais são as marcas da poética de Eliane de Lacerda?

15 de junho de 2013

FUTEBOL

Adoro futebol. De todos os esportes que conheço, é o que acho mais completo, fraterno e humano. 
As habilidades necessárias para compor um time são impossíveis de se conseguir com apenas um biotipo. Daí que o futebol é acessível a baixos e altos, fortes e esguios, sem prevalência de um sobre o outro, uma vez que para cada posição ou situação um biotipo pode ser preferencial a outro, mas não é regra. Romário e Mauro Galvão estão aí, na memória de todos e nos arquivos na web, para provar minha tese.
O futebol, como todos os esportes, concentra sua beleza e sua grandeza nos aspectos simbólicos que ele produz. Mais do que detalhes técnicos e atléticos, o apreciador de esportes se encanta com o lado mitológico, com as metáforas e com os subtextos imaginados a partir de uma disputa. Quem já viu um atleta de uma nação rica (favoritíssimo antes da largada de uma corrida) ser vencido inesperadamente por um quase desconhecido corredor (representante de um país que muitos sequer conseguiriam apontar no mapa), conchece o tsunami de emoções que os esportes conseguem proporcionar. E, para mim, dentre todos, o futebol é o esporte que mais e melhor consegue metaforizar a experiência da vida humana. 
Há partidas de futebol que podem ser lidas como verdadeiros tratados sobre a espécie humana. Há em cada partida futebol, da final de Copa do Mundo à pelada de várzea de um domingo de sol ao meio dia, um número enorme de sentimentos, situações, conflitos e lições de vida. 
Talvez a explicação para o fato de nossa literatura de ficção tratar tão pouco do assunto, seja porque uma partida de futebol já é um romance em si, ou uma tragédia, às vezes até uma farsa. Mas o que não falta ali, nunca, é drama, a ação que se constroi na dinâmica das causas e consequências. Até partidas canceladas dão boas histórias.

14 de junho de 2013

ESPECULAÇÃO SOBRE "A ORIGEM DO CAPITALISMO"

Com o fim do sistema feudal (Idade Média, séc. XV), a Europa (e o Novo Mundo recém invadido para ser acoplado ao mundo europeu) foi progressivamente desenvolvendo e ampliando as práticas comerciais e industriais que já existiam, mas que foram se tornando cada vez mais organizadas e racionais (Max Weber utiliza o termo "capitalismo racional" para explicar isto). 
Após um período em que a organização política mais recorrente era a monarquia (nobreza), as sociedades da Europa foram se organizando em torno da ideia de Estado-Nação até chegarem na implantação das repúblicas (res = coisa), em que o poder é dividido em três partes (executivo, legislativo e judiciário) e quase todas as pessoas são consideradas participantes do processo político e em iguais condições (embora isto não ocorra plenamente, fica pelo menos no plano da intenção). 
No século XIX surgiram três (foram várias, mas vamos focar nestas três que mais se impuseram) propostas de organização político-econômica: 1. as democracias burguesas (capitalismo liberal); 2. o nacional-socialismo (capitalismo controlado pelo estado); 3. comunismo (o capital aqui passa a ser plenamente controlado pelo estado, que assume o pleno controle dos bens, da saúde, educação, segurança etc.). 

12 de junho de 2013

A LÓGICA DO AMOR ROMÂNTICO

Doze de junho é a data  conhecida como Dia dos Namorados - junto com o Dia das Mães é a que mais lucro gera para o comércio. Véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, a data foi provavelmente introduzida no Brasil por João Dória (publicitário baiano), em 1949, para atender aos interesses de uma loja de departamento paulista.
Se pensarmos como a lógica da sociedade capitalista pode ser aplicada a este dia para ajudar a entender sua dimensão racional, a coisa fica assim: o romantismo (entendido como manifestação estética e ideológica própria da burguesia) faz com a relação amorosa o mesmo que faz com outros elementos, como a pátria, a sociedade, o povo etc., isto é, a visão romântica idealiza estes elementos. Idealizar é conferir perfeição, pureza, heroísmo, gigantismo, transcendência a coisas que são simplesmente naturais ou humanas, ou seja, coisas que são imperfeitas, impuras, medíocres, miúdas, telúricas (e isto não é defeito, apenas é assim que as coisas são, sem o cosmético da fantasia). 
O amor idealizado estabelece limites inatingíveis e irreais: duração eterna, harmonia plena, fidelidade até no pensamento, sorrisos 24 horas, tudo didaticamente concentrado na fórmula dos contos de fada (aburguesados): "... e viveram felizes para sempre".

Não por acaso, esta sociedade é congenitamente neurótica, uma vez que viver impondo a si e aos demais a busca por objetivos impossíveis de se atingir só pode gerar frustração, decepção e psicopatias de todo tipo (ainda bem que tem o psicólogo e a farmácia da esquina para aliviar).

Comércio e propriedade individual. Estes dois elementos são fundamentais na distinção entre a sociedade burguesa e a, digamos, "feudal" (medieval) que antecedeu aquela. 

5 de junho de 2013

RECORDAÇÃO (crônica de Antonio Prata)

Resumo: o texto abaixo é de Antonio Prata e é um exemplo primoroso da grandeza e da simplicidade da crônica. Este gênero maleável, que mimetiza qualquer outro gênero, consegue extrair da aparente simplicidade cotidiana momentos sublimes. 
 
Antonio Prata

Recordação



"Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado", ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: "Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado".

Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: "Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás... Fazer o que, né? Se Deus quis assim...".

Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo e consegui encaixar um "Sinto muito". "Obrigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela." "Cê não tem nenhuma?" "Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela. Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?" "Isso."

"Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar." "E aí?!" "Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: Entra'. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação'."

Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas 50 pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. "Olha a data aí no cantinho, embaixo." "1º de junho de 1988?" "Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo 25 anos, hoje. Ali do lado da banca, tá bom pra você?" 

(FOLHA DE SÃO PAULO. 5 jun. 2013 - Cotidiano - Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/112455-recordacao.shtml)

14 de maio de 2013

ESPECULAÇÃO SOBRE "A BURGUESIA: UMA DEFINIÇÃO"



Onde e quando nasce a burguesia? Esta pergunta terá tantas respostas quantos forem os modelos de pensamento utilizados para tentar respondê-la. 
Como é útil definir alguns pontos de partida quando se quer conversar mais profundamente sobre algo, vamos propor um rascunho para essa indagação.
Começa assim: a palavra remete a "burgo", que seriam os protótipos do que hoje conhecemos por "cidades". O burguês é seu habitante e a burguesia o conjunto formado pelas pessoas assim classificadas.
Desde o século XII já é possível identificar pessoas cujas ocupações se distinguem do grande número de trabalhadores braçais (e demais grupos de baixo prestígio, despossuídos, mendigos etc.) que formavam a enorme base da pirâmide medieval. 
Conforme esta camada vai se desenvolvendo, vai ficando cada vez mais numerosa e influente. No comércio, na construção, na manufatura, nos serviços burocráticos, são várias as áreas de ocupação que ficam a cargo dessas pessoas. Mas claro, é preciso lembrar que essa história não é simplesmente linear, mas atravessada por refluxos de época em época.  

28 de abril de 2013

EXISTE VIDA LITERÁRIA NA REGIÃO SUL FLUMINENSE?



A pergunta do título não é fácil de responder, dentre outros motivos, pelo fato de que é certo que cada um tem uma concepção própria do que seria o ideal ou o desejável para uma região em matéria de “vida literária”. Para alguns, talvez este ideal seja viver em um lugar cujo índice de livrarias e bibliotecas se assemelhe ao de Paris, cidade que tem a cultura letrada como um de seus orgulhos históricos e como parte de sua própria identidade. Para outros, a constatação de que existam pessoas produzindo literatura e pessoas usufruindo dela talvez já seja um dado suficiente e satisfatório. 
Acredito que a segunda opção seja a mais “realista”, mais “comum” e por ela me pauto.
E, se alguém me fizesse a tal pergunta, arriscaria dizer que nossa vida literária “vai bem, obrigado”. 

26 de fevereiro de 2013

A HISTÓRIA DOS CIDADÃOS UNIDOS x COMISSÃO ELEITORAL FEDERAL


Annie Leonard (Projeto História das Coisas) trata neste vídeo do polêmico tema do financiamento das campanhas políticas. O raciocínio é simples, mas a solução é para lá de complicada. Uma vez que empresas financiam as campanhas com seus milhões, fica difícil para candidatos não apoiados por elas conseguirem vaga nas câmaras ou senado. Por sua vez, causas de interesse da coletividade, mas que vão de encontro aos interesses por lucro das corporações, dificilmente serão aprovadas e sancionadas, afinal, na hora de legislar, votar, aprovar, os políticos precisam cumprir com a palavra que empenharam e não irão querer perder seus ricos padrinhos.
Mas o engraçado nisto tudo é ver que até mesmo nos EUA (país de Annie Leonard), algumas pessoas estão começando agora (mas só agora?) a perceber o quanto o sistema democrático é passível de distorção, o quanto as empresas são quem, de fato, decidem os rumos da nação, definem as ações do Estado, decidem sobre a vida dos cidadãos. A retórica de que a democracia é um sistema baseado na representatividade e promove a igualdade de direitos cai por terra ao menor olhar crítico que se fizer sobre ela.


Depois da tirania neoliberal dos anos 80-90, a crise econômica (na verdade, a falência do sistema capitalista) vai revelando, para quem quiser ver, o funcionamento de sua estrutura e os mecanismos que cria para se perpetuar no poder e causar a ilusão de que é a única forma de organização e produção possível. 
Mas é aquela história, toda mentira, um dia se revela.

Talvez tenha sido Goebbels quem disse "uma mentira dita cem vezes torna-se verdade", enquando Abraham Lincoln (dizem) afirmaria que:"Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todas por todo o tempo."