25 de agosto de 2011

SOBRE LITERATURA (introdução)

Chuva (Goeldi, 1957)

Resumo: em salas de aula, um assunto que volta e meia vem à tona é a questão de até onde uma atividade de interpretação de texto tem validade, uma vez que há aqueles que defendem que o entendimento de um texto seria um ato plenamente subjetivo. Este artigo parte dessa ideia para tentar provar que ela, colocada dessa forma, é, senão falsa, pelo menos incompleta. 

            Faz parte do anedotário estudantil um comentário, atribuído ao poeta Carlos Drummond de Andrade, no qual ele teria afirmado que se houvesse de responder uma certa questão no vestibular sobre um poema de sua autoria teria errado, pois ele não concordava com a resposta dada pelo gabarito. Alguns alunos citam isso quando nas aulas de literatura o assunto é a interpretação dos textos literários, usam tal exemplo para reforçar a opinião que carregam consigo de que a interpretação é subjetiva, portanto, cada um lê do jeito que melhor lhe aprouver.
            Sempre que isso ocorre vejo o quanto é necessário insistirmos em certas noções elementares de teoria literária, que tanta falta fazem, não sei ao certo se somente aos alunos, mas também a muitos professores do fundamental e médio, responsáveis diretos pelo (des)conhecimento de certos procedimentos básicos de leitura interpretativa que os alunos recorrentemente demonstram.
            Se formos verificar a autenticidade da anedota acima (dita pelos alunos na maioria das vezes como uma sólida verdade), vamos perceber que talvez se trate de uma afirmação de Roberto Drummond, autor de “Hilda Furacão” – e não de Carlos, o poeta de “No meio do caminho”. Roberto Drummond contava que resolvera prestar o vestibular e soube que seu livro “A morte de D. J. em Paris” serviria de fonte para algumas questões. Ao corrigir sua prova, percebeu que havia errado as questões sobre seu próprio livro. Verdade ou não, o caso assumiu ares de “fato” ocorrido, apesar do caráter folclórico. Daí para a situação ser atribuída ao outro Drummond foi um pulo.
            Reforça ainda a minha preocupação, a opinião que algumas pessoas têm a respeito das aulas de Literatura, quando afirmam que para estudá-la basta ler[1]  e dizer o que achou. Enfim, que se trata de um simples caso de “gostei” ou “não gostei”.
            Uma vez que defendo ser possível e necessário desenvolver práticas de leituras com base objetiva e com forte carga de reflexão e postura crítica - o que auxiliaria em muito a formação de leitores capazes de interagir profundamente com os textos do mundo -, torna-se uma questão fundamental discernir certos pontos acerca deste problema, a começar pela revisão do mito romântico do “gênio criador”.
            Conforme sabemos, o romantismo é o gênero burguês por excelência, feito sob encomenda para realçar e disseminar os valores, a estética, a ética e a ideologia da nova classe, então emergente. Um progressismo calcado no “theatrum mundi” da urbanidade, na iniciativa empreendedora do indivíduo e na difusão do conhecimento gerou, por conseguinte, o culto à celebridade, ao individualismo e aos personalismos de seus atores, tornando a estética romântica receptiva a todo tipo de idiossincrasias e de mitificações do "eu". Em meio a esse quadro dissemina-se a idéia de que o ser criador está divinamente e totalmente incrustado em sua obra e, ainda mais grave, que o ato criador é a manifestação fortuita do dom que todo artista de gênio possui, por isso, sua obra é então compreendida como feita de uma só tacada e, desde já, estando acabada e pronta, não necessitando de retoques, conhecimento técnico, esforço nenhum. Arte literária, compreendida dessa maneira, é dom, dádiva, e, sendo assim, é atribuição dos eleitos pelas musas revelar ao mundo o brilho de suas almas. Fernando Pessoa explora engenhosamente esta crença do leitor ingênuo ao explicar o “nascimento” de Alberto Caieiro. Mas quem lê com atenção o brilhante autor de "Mensagem", sabe que ele afirma que o poeta é "um fingidor". O recado é claro: desconfiem do que os autores dizem, não só em suas obras, mas sobre si mesmos em depoimentos, cartas e entrevistas.
            Essa crença do leitor ingênuo, potencializada pelo conhecido fervor juvenil dos autores românticos, fundamentaram a concepção de que o poema é o autor, de que o texto é o registro fiel de um instante sentido e experimentado por uma alma de gênio e sensibilidade. O jovem, em geral, se imagina único, original e especial, com o resto do universo girando ao redor de si e os nossos românticos não foram exceção à regra. É bom lembrar ainda que o comportamento juvenil nem sempre termina com o fim da juventude.
            Mas o bonde da história não fica parado. Por isso, percebemos que as mesmas forças que impulsionaram a conformação dessa sociedade mitificadora do gênio, geraram as transformações científicas que alteraram o pensamento humano nos últimos séculos. O Renascimento e o Iluminismo foram responsáveis, em grau maior ou menor, pelos esforços de construção de sociedades baseadas na solidez de suas instituições, assim como pela valorização da razão e do pensamento crítico.  
            E foi este empreendimento da razão que permitiu a construção de um conjunto de teorias e práticas capazes de alterar aquela percepção mitificadora e simplista que o senso comum atribuía ao escritor e à sua obra.
            Os principais responsáveis por essa mudança na apreciação do texto literário, ou pelo menos pela proposta de mudança, foram os estudiosos do século XX, especialmente os chamados “formalistas russos”, seguidos pela “nova crítica” e pelo “estruturalismo” literário. Não ignoramos a contribuição do século anterior, promovida pelos próprios autores, cada vez mais conscientes do ato de escrever (nosso Machado de Assis é brilhante nesse aspecto), pelos poetas simbolistas e pelas experimentações das vanguardas, além das importantes contribuições de historiadores, críticos e pensadores. Mas é no XX que a Teoria da Literatura irá se afirmar como sistema objetivo de compreensão do fenômeno literário.
            Os manuais escolares de ensino de língua materna e de literatura trazem embutidas em suas propostas de leituras e atividades de interpretação inúmeras contribuições da Teoria da Literatura (na verdade, Teorias). Mas infelizmente há ainda uma mistura incoerente de propostas de abordagem do literário por estes manuais que confundem o leitor em sua busca pela leitura objetiva dos textos literários.
            Daí a importância em organizar melhor as ferramentas teóricas que habilitem o leitor atento e desfaçam de vez a ideia de que a interpretação de um texto é puramente pessoal e que "cada um entende do seu jeito". Mas isto fica para outro texto.

            SUGESTÃO DE LEITURAS:
Domício Proença Filho. A Linguagem Literária. Ed. Ática.
Roberto Acízelo de Souza. Teoria da Literatura. Editora Ática (Série Princípios).


[1]  Neste caso, “ler” pode significar olhar um resumo ou assistir ao filme.

14 de julho de 2011

FRANCISCO BOSCO ESCREVE SOBRE LETRA E MELODIA

A canção é um gênero artístico que vem sendo estudado também pelos departamentos de Letras. No Brasil, destacam-se nomes como Luiz Tatit, José Miguel Wisnick, Cláudia Neiva Matos e tantos outros. O texto abaixo, de Francisco Bosco, aborda o assunto de modo interessante e apontando para os eixos distintos do conjunto cancional: a letra, a melodia, a dicção do intérprete, a harmonia, o ritmo etc.
REPRODUÇÃO DO TEXTO DE FRANCISCO BOSCO (leia no original)
'Alegria da melodia'

Em artigo, o ensaísta e letrista Francisco Bosco fala sobre os 'momentos 'Shimbalaiê' da música

RIO - Ao aceitar responder, por e-mail, ao GLOBO sobre os mistérios que envolvem palavras como "Tchubaruba" e "Shimbalaiê", o ensaísta e letrista Francisco Bosco acabou se empolgando e enviou um artigo completo sobre o tema. Leia abaixo o que Bosco pensa sobre esses "momentos alegres da história da canção".
Eu acho que, na canção, a melodia tem certa autonomia que a letra não tem (ou só tem raramente). Ou seja, poder-se-ia suprimir a letra de muitas canções e ainda assim restaria uma bela melodia, que teria vida autônoma. Várias vezes, senão sempre, eu recebi melodias e me encantei com elas do jeito que elas vieram, sem letra. (Algumas vezes até temi estragá-las colocando letras.) Pegue, por exemplo (tá certo que é um exemplo e tanto), uma canção como "Tarde", de Milton Nascimento; ela poderia sobreviver sem a letra. É claro que a letra com a melodia forma a experiência única de sentido que é a canção, e que decorre do entrelaçamento nevrálgico da letra e da melodia, ambas se determinando reciprocamente (mais harmonia, ritmo, dicção do intérprete, etc.). Mas, falando concretamente, é comum dedicarem-se discos com versões apenas instrumentais, isto é, sem letra, de canções de algum compositor, mas o contrário é quase sempre um equívoco: livros com letras de canção, sem a música, costumam ser uma obra que fica num limbo, nem poesia, nem canção.
É dessa autonomia da melodia que vêm todos os "shimbalaiês" da história da canção, e que são inúmeros. O "shimbalaiê" é uma passagem da palavra ao som, da transitividade do semântico à intransitividade do melódico. Apesar de soar abstrata e acadêmica, essa frase é bem precisa. É que a linguagem verbal, o que a define, é sua capacidade de representar as coisas, ao passo que a música, ao contrário, talvez seja a mais irrepresentável das linguagens. Se você me permite, vou entrar num nível mais filosófico agora. Ocorre que representar o mundo é, de certo modo, impossível, porque a linguagem sempre produz o objeto no momento mesmo que acredita o estar conhecendo. É a questão epistemológica, que moveu (ou paralisou) séculos de filosofia: quem vem primeiro, a linguagem ou o objeto? No popular, é o famoso "quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?". Não há como saber, pois é como querer pegar a própria sombra. Então, de certo modo a linguagem verbal é o campo do erro. Mas a música, não. Ela não representa nada, ela não é outra coisa além de si mesma. Ela é o que é (o que chamo de intransitivo). É por isso, no meu entender, que Nietzsche disse que "sem a música, a vida seria um erro".
Então, voltando ao centro do assunto, eu acho que o "shimbalaiê" é um momento em que a linguagem verbal não se aguenta e deseja ser música, deseja livrar-se do fardo de representar, de ser outra coisa que não ela mesma. É como se a linguagem não resistisse à alegria da música e se transformasse em música. É como se ela se desse conta de que o que a música está sentindo não se pode expressar, não há palavra que chegue (pois a palavra nunca chega, ela sempre perde o trem). Então ela desiste de ser palavra e vira som, puro som. E aí ela fica feliz, e é por isso que todo mundo fica feliz quando ouve. É uma libertação da palavra. Você me pergunta se eu sei dizer o que significa "shimbalaiê". É claro que sei. "Shimbalaiê" significa isso, ou seja, a alegria da música, a pureza da música, o afeto que a música está levando ao mundo. Assim, quando se diz que "Shimbalaiê" não quer dizer nada, isso está corretíssimo, mas no sentido contrário do que geralmente se intenciona: "Shimbalaiê" não quer dizer nada porque deixou de ser significação e passou a ser. Ponto.
Ou você acha que algum verso poderia representar melhor a alegria da melodia de "Taj Mahal" do que essas sílabas esquecidas de si, em plena folia, travestidas de música: "Têtêtêtê-têtêrêtêtê..."? Enfim, esses momentos "shimbalaiê" são os momentos mais alegres da história da canção, mais verdadeiros e mais impactantes - precisamente porque não significam nada.

29 de junho de 2011

NA CONTRA-MARCHA DA HISTÓRIA

No blogue Democracia e Socialismo, o amigo Adelson manifestou a opinião dele favorável à "descriminação da maconha". Deixei minha resposta sob o "post" dele e aproveito para reproduzi-la aqui com acréscimos.
Confesso que já estou cansado dessas reivindicações por "liberdade" disso e daquilo. Os movimentos de protesto e reinvidicação deste século, sintomaticamente, clamam pela "criação" de direitos para lá de contestáveis. As reivindicações das chamadas "minorias" (palavra que esconde mais do que revela) perderam muito de seu justificado clamor por igualdade de tratamento pelo Estado e transformaram-se em estratégias retóricas para a obtenção de privilégios. Tudo muito de acordo com a lógica neo-liberal das últimas décadas, período de rápido desenvolvimento de tais movimentos (sugestão de leitura: "As Ilusões do Pós-Modernismo", de Terry Eagleton).
É bastante suspeito este afã em reivindicar mudanças culturais, comportamentais e/ou éticas pela via jurídica e legal. Esse exagero esconde interesses comerciais, lobistas e hedonísticos, ou seja, é a  lógica do capital por trás dos atos dos "indignados", das marchas, dos gritos por "liberdade" (a palavra mais estuprada pela retórica liberal).
Certos padrões de comportamento, de moral e ética, historicamente desenvolvidos, são mecanismos criados com intenções de manter o funcionamento social, e nem sempre devem ser vistos como opressão e falta de "liberdade". A apropriação indevida do pensamento de certos autores (Foucault, Gramsci, Althusser...) fomenta os argumentos de "denúncia" da segregação, do desrespeito, da injustiça, desconsiderando que o pensamento original de tais autores se dá em um contexto maior, a partir das relações entre elementos inseridos em uma estrutura maior, globalizante. Assim, a constatação de processos de repressão sobre certos grupos ou indivíduos deveria ser pensada como ponto de partida para redimensionar toda a estrutura que promove e sustenta tais processos, que são concretizados pelas forças do capital, pela ideologia burguesa e liberal que os legitimam.
A proliferação de Marchas que vem ocorrendo tem seu lado positivo e progressista, mas há muito de oportunismo deliberado, de leviandade disfarçada em "belas causas", de autismo social em cada uma delas. Reproduz-se a forma mitificada das passeatas históricas para cada um vender seu peixe ou o pirão feito primeiro.

24 de maio de 2011

BOB DYLAN

Bob Dylan completa 70 anos hoje! 70?! 
A primeira vez que ouvi Blowin'in the Wind, na versão de Diana Pequeno em um programa de auditório, fiquei maravilhado. Aquela letra, aquela melodia... não teve jeito. Passei a perseguir Dylan em um tempo que ter acesso a músicas etc. era uma odisseia. Não era nada fácil achar em Volta Redonda de fins dos anos 70, início dos 80, discos que não fossem trilhas sonoras ou sucessões de rádio AM. 
Conheci Dylan pra valer ouvindo o lp Desire (1976), que rodava em nossos toca-discos à exaustão nos anos 80. Hurricane, Isis, Oh, Sister ficaram impressas na minha memória auditiva. Dylan pra mim nunca foi um deus, mas sempre admirei-o muito como letrista, melodista e intérprete de canções, sua voz é essencial para dar o realce expressivo que certas canções pedem. Nos anos 60 ajudou a legitimar o conceito de autoria na canção pop, firmando o estilo compositor-cantor em substituição a ideia consagrada de intérpretes técnicos. Algo similar aconteceu no Brasil, com João Gilberto e Chico Buarque. Isto por si só já o consagra, mas sua obra vai muito além disto, pela variedade, pelo simbolismo de sua figura para a contracultura e para a cultura pop e nos últimos anos pela longevidade de sua verve criativa.
O documentário No Direction Home (de Martin Scorsese) é uma ótima introdução à obra de Bob Dylan. Recomendo.

22 de maio de 2011

ME DEIXEM EXPLICAR...

Em meio à tempestade em copo d'água promovida pelo O Globo sobre o livro "Por Uma Vida Melhor", surge na Folha de São Paulo uma notícia interessante. Lembrando: jornalistas de O Globo (Merval Pereira, Artur Dapieve, o próprio Editorial etc.) colocaram o livro no paredão e fuzilaram a autora sem sequer terem lido o contexto e/ou procurado entender a proposta didática e a base teórica que justificam a abordagem. Mas como o propósito era detonar o Haddad (do MEC), pré-candidato a prefeito de SP, a gente entende o porquê da 'falha'. 
Abaixo segue o texto da FSP (já que a página original é só para assinante - recomendo: assine o UOL, 8 merreis, e tenha acesso à Folha e outras publicações).


Mesmo falantes cultos não seguem a norma padrão

Análise leva em conta mais de 1.500 horas de entrevistas gravadas desde a década de 1970 em cinco capitais

Pesquisa mostra que entre brasileiros com nível superior só 5% usam pronomes da forma recomendada

ANTÔNIO GOIS
DO RIO

"Os menino pega o peixe e colocam na mesa." O leitor mais escolarizado provavelmente estranhará a falta de concordância na frase anterior entre o artigo e o substantivo e entre o sujeito e o verbo. Mas há algo mais nela em desacordo com o que é ensinado em gramáticas.
Falta o pronome oblíquo "o", para que a frase, agora escrita em total acordo com a norma padrão, fique assim: "Os meninos pegam o peixe e colocam-no na mesa."
Análise de mais de 1.500 horas de entrevistas gravadas desde 1970 em cinco capitais revelam que mesmo os brasileiros de nível universitário, na fala, usam variedades linguísticas em desacordo com a norma padrão.
Estudos feitos a partir do projeto Nurc (Norma Linguística Culta Urbana) e do Programa de Estudos sobre o Uso da Língua revelam, por exemplo, que a omissão do pronome, como no exemplo da frase que iniciou este texto, é uma das características mais comuns tanto entre os mais escolarizados quanto entre os menos instruídos.
Entre brasileiros com nível superior, não passa de 5% a frequência na fala com que o pronome é colocado em casos em que a norma padrão escrita recomendaria. Entre os menos escolarizados, o percentual é de 1%.

CONCORDÂNCIA
A diferença mais visível está na concordância em frases curtas, como em "Os menino pega o peixe", mais comum entre os menos escolarizados.
As pesquisadoras Dinah Callou, Eugenia Duarte e Célia Lopes, da UFRJ do projeto Nurc, explicam que os mais escolarizados têm maior cuidado com a concordância ao escrever. Na fala coloquial, porém, o monitoramento é menor e ela se aproxima das variantes populares.
"Para espanto de muitos, as análises mostram que as variedades cultas não só não se distinguem muito entre si como também não se distanciam muito das variedades chamadas populares", afirmam as pesquisadoras.
Um dos mais conhecidos estudos feitos a partir da base de dados do projeto Nurc foi feito por Ataliba Teixeira de Castilho (Unicamp).
Ele afirma que uma das principais conclusões foi que, para surpresa de muitos, a língua falada por eles era também muito diferente do que era preconizado pelas gramáticas da época.
Os pronomes pessoais das gramáticas escolares (eu, tu, eles, nós, vós, eles), por exemplo, já não correspondiam mais ao que era usado na fala dos mais escolarizados, que já trocavam, desde a década de 1970, "tu" e "vós" por "você" e "vocês", além de "nós" por "a gente".
Uma das consequências é que, como explica Castilho, é cada vez menos comum o uso do sujeito oculto, já que, pela terminação do verbo, não é possível mais identificar claramente qual pronome pessoal foi ocultado.
As formas verbais de terceira pessoa são usadas com os pronomes "você" e "ele", portanto a terminação não é capaz de identificar o sujeito (por exemplo, "você fala", "ele fala"). O mesmo vale para as formas do plural ("vocês falam", "eles falam"). Com "tu" ou "vós", isso não aconteceria. A terminação seria suficiente para que o interlocutor descobrisse qual era o sujeito da frase.

8 de maio de 2011

OBAMA E O GOVERNO DOS EUA SÃO ASSASSINOS VULGARES

Qualquer coisa que eu disser é redundância. Portanto, basta o título e os textos de outros autores que seguem abaixo.

ROBERT FISK
FONTE: http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-globo/2011/05/04/osama-foi-traido-claro-que-sim-coluna-robert-fisk


Osama foi traído? Claro que sim / Coluna / Robert Fisk



Robert Fisk

Uma pessoa de meia idade, um fracasso político a ser desprezado pela História depois que milhões de árabes foram às ruas pedindo liberdade e democracia no Oriente Médio, morreu no Paquistão.

E, aí, o mundo enlouqueceu. Osama bin Laden via a criação da al-Qaeda como sua maior realização. Mas a al-Qaeda não era uma organização que exigisse filiação oficial. Bastava acordar decido a integrá-la e pronto. E Bin Laden não era um guerreiro. Em sua “caverna” não havia computadores ou telefones para ativar bombas.

Por falar em cavernas, a morte de Bin Laden coloca o Paquistão na berlinda. Durante meses, o presidente Ali Zardari insistiu que ele vivia em uma caverna no Afeganistão. Agora, sabe-se que morava numa mansão no Paquistão. Bin Laden foi traído? Claro. Pelos militares ou os serviços de inteligência do Paquistão? Provavelmente pelos dois. O Paquistão sabia onde ele estava.

Abbottabad não é apenas sede da principal escola militar do Paquistão. A cidade — fundada pelo major do Exército britânico James Abbot em 1853 — também é o quartel- general da segunda divisão do Exército paquistanês.

Há cerca de um ano, procurei entrevistar outro “homem mais procurado do mundo”, o líder de um grupo que se acredita ser responsável pelo Massacre em Bombaim, Índia.

E o encontrei na cidade paquistanesa de Lahore, guardado por policiais paquistaneses à paisana armados de metralhadoras.

Claro que há várias perguntas não respondidas: Bin Laden poderia ter sido capturado? A CIA, os Seals da Marinha, as Forças Especiais dos EUA ou qualquer que seja o grupo militar americano que o matou não tinha meios de prender o tigre com uma rede? “Justiça”, declarou Barack Obama sobre sua morte.

Nos velhos tempos, porém, “justiça” significava um processo legal, uma corte, uma audiência, uma defesa e um julgamento. Assim como os filhos de Saddam, Bin Laden foi abatido. Certamente ele nunca quis ser capturado vivo, e havia baldes e baldes de sangue no quarto em que ele morreu.

Mas um julgamento traria mais preocupações para algumas pessoas do que o próprio Bin Laden. Afinal, ele poderia revelar os contatos que teve com a CIA durante a ocupação soviética do Afeganistão, ou seus encontros em Islamabad com o príncipe Turki, chefe da inteligência da Arábia Saudita. Assim como Saddam — que foi julgado pelo assassinato de apenas 153 pessoas e não dos milhares de curdos que matou com gás. Saddam foi enforcado antes que tivesse a chance de contar como obteve dos EUA as matérias-primas para fazer o gás, ou sobre sua amizade com Donald Rumsfeld e a ajuda militar que recebeu depois que invadiu o Irã em 1980. Nos anos depois de 2001, mantive uma fraca comunicação indireta com Bin Laden, tendo uma vez me encontrado com um de seus aliados da al-Qaeda no Paquistão. Escrevi uma lista de 12 perguntas, a primeira delas óbvia: que tipo de vitória poderia querer se suas ações resultaram na ocupação americana de dois países muçulmanos?

Não houve resposta por semanas até que fui informado de que a al-Jazeera tinha obtido uma nova fita de áudio de Bin Laden. E, uma por uma — e sem me mencionar — ele respondeu minhas 12 perguntas. E, sim, ele queria que os americanos invadissem países muçulmanos, para que pudesse matá-los.

Até agora, recebi três telefonemas de árabes certos de que os americanos só mataram um dublê de Bin Laden. E caberá à própria al-Qaeda esclarecer isso. Claro que, se estivermos errados e o morto for mesmo um dublê, em breve veremos surgir uma nova fita de ameaças do verdadeiro Bin Laden — e o presidente Barack Obama vai perder as próximas eleições.

ROBERT FISK é colunista do “Independent”

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CARLOS HEITOR CONY
FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0805201105.htm

Corpo de delito

RIO DE JANEIRO - Os desavisados leitores que, por masoquismo, atentam para as minhas crônicas, devem estar lembrados de minha preocupação pelos ossos de Dana de Teffé, cujo corpo nunca foi encontrado, razão pela qual seu assassino não respondeu por nenhum processo.
Sem cadáver não há crime. O Brasil passou um ano procurando o corpo. Não houve osso de galinha ou de cachorro que não tenha sido examinado pelos institutos de criminalística.
Pulando de Dana de Teffé para Osama bin Laden, ficaremos mais ou menos na mesma situação. Jogaram um troço qualquer no mar, fica a critério de cada um acreditar na história.
Se aparecerem fotos, haverá suspeita de montagem, efeitos especiais etc. Pelas leis do direito penal, não servirão de prova juridicamente incontestável.
Os delicados pruridos de Barack Obama, poupando o olhar da humanidade de um cadáver mutilado, são discutíveis. Os atentados terroristas são exaustivamente publicados, com as autoridades sem o escrúpulo de chocar a sensibilidade dos povos.
Pelo que se sabe, nos últimos anos, o terrorista estava desativado, morando numa casa com mulheres e crianças, na hora em que foi descoberto estava desarmado. Parece improvável que daquele abrigo ele pudesse comandar, traçar a estratégia e o financiamento das operações criminosas.
Era um símbolo do mal, responsável pelo maior crime dos tempos modernos, comparável a um Hitler ou a um Stálin.
Estão abertas, a partir de agora, diversas teorias conspiratórias que alimentarão os fundamentalistas do terror. Obama declarou que a justiça foi feita.
Qualquer consciência condenaria Bin Laden à morte. Contudo, do jeito que ele morreu, não foi caso de justiça, mas de vingança pessoal.

AVE MARIA DA RUA

Em homenagem ao Dia das Mães, relembro esta música gravada por Raul Seixas, uma das mais completas canções que já ouvi. Letra, melodia, arranjo e interpretação convergem expressivamente e provocam uma tempestade à flor da pele e na raiz do coração. É para ouvir bem alto em caixas potentes.



Ave Maria da Rua
Raul Seixas
Composição : Raul Seixas/Paulo Coelho


No lixo dos quintais
Na mesa do café
No amor dos carnavais
Na mão, no pé, oh
Tu estás, tu estás
No tapa e no perdão
No ódio e na oração

Teu nome é Yemanjah (Yemanjah)
E é Virgem Maria
É Glória e é Cecília
Na noite fria
Oh, minha mãe
Minha filha tu és qualquer mulher
Mulher em qualquer dia

Bastou o teu olhar (Teu olhar)
Pra me calar a voz
De onde está você
Rogai por nós
Ooooh, Ooooh!
Minha mãe, minha mãe
Me ensina a segurar
A barra de te amar

Não estou cantando só
Cantamos todos nós
Mas cada um nasceu
Com a sua voz,
Ooooh, Ooooh!
Pra dizer, pra falar
De forma diferente
O que todo mundo sente

Segure a minha mão
Quando ela fraquejar
E não deixe a solidão
Me assustar
Ooooh, Ooooh!

Minha mãe, nossa mãe
e mata minha fome
Nas letras do teu nome
Ooooh, Ooooh!

Minha mãe, nossa mãe
E mata minha fome
Nas letras do teu nome
Ooooh, Ooooh!
minha mãe, nossa mãe
E mata minha fome
Na glória do teu nome.