12 de junho de 2013

A LÓGICA DO AMOR ROMÂNTICO

Doze de junho é a data  conhecida como Dia dos Namorados - junto com o Dia das Mães é a que mais lucro gera para o comércio. Véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, a data foi provavelmente introduzida no Brasil por João Dória (publicitário baiano), em 1949, para atender aos interesses de uma loja de departamento paulista.
Se pensarmos como a lógica da sociedade capitalista pode ser aplicada a este dia para ajudar a entender sua dimensão racional, a coisa fica assim: o romantismo (entendido como manifestação estética e ideológica própria da burguesia) faz com a relação amorosa o mesmo que faz com outros elementos, como a pátria, a sociedade, o povo etc., isto é, a visão romântica idealiza estes elementos. Idealizar é conferir perfeição, pureza, heroísmo, gigantismo, transcendência a coisas que são simplesmente naturais ou humanas, ou seja, coisas que são imperfeitas, impuras, medíocres, miúdas, telúricas (e isto não é defeito, apenas é assim que as coisas são, sem o cosmético da fantasia). 
O amor idealizado estabelece limites inatingíveis e irreais: duração eterna, harmonia plena, fidelidade até no pensamento, sorrisos 24 horas, tudo didaticamente concentrado na fórmula dos contos de fada (aburguesados): "... e viveram felizes para sempre".

Não por acaso, esta sociedade é congenitamente neurótica, uma vez que viver impondo a si e aos demais a busca por objetivos impossíveis de se atingir só pode gerar frustração, decepção e psicopatias de todo tipo (ainda bem que tem o psicólogo e a farmácia da esquina para aliviar).

Comércio e propriedade individual. Estes dois elementos são fundamentais na distinção entre a sociedade burguesa e a, digamos, "feudal" (medieval) que antecedeu aquela. 

5 de junho de 2013

RECORDAÇÃO (crônica de Antonio Prata)

Resumo: o texto abaixo é de Antonio Prata e é um exemplo primoroso da grandeza e da simplicidade da crônica. Este gênero maleável, que mimetiza qualquer outro gênero, consegue extrair da aparente simplicidade cotidiana momentos sublimes. 
 
Antonio Prata

Recordação



"Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado", ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: "Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado".

Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: "Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás... Fazer o que, né? Se Deus quis assim...".

Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo e consegui encaixar um "Sinto muito". "Obrigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela." "Cê não tem nenhuma?" "Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela. Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?" "Isso."

"Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar." "E aí?!" "Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: Entra'. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação'."

Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas 50 pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. "Olha a data aí no cantinho, embaixo." "1º de junho de 1988?" "Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo 25 anos, hoje. Ali do lado da banca, tá bom pra você?" 

(FOLHA DE SÃO PAULO. 5 jun. 2013 - Cotidiano - Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/112455-recordacao.shtml)

14 de maio de 2013

ESPECULAÇÃO SOBRE "A BURGUESIA: UMA DEFINIÇÃO"



Onde e quando nasce a burguesia? Esta pergunta terá tantas respostas quantos forem os modelos de pensamento utilizados para tentar respondê-la. 
Como é útil definir alguns pontos de partida quando se quer conversar mais profundamente sobre algo, vamos propor um rascunho para essa indagação.
Começa assim: a palavra remete a "burgo", que seriam os protótipos do que hoje conhecemos por "cidades". O burguês é seu habitante e a burguesia o conjunto formado pelas pessoas assim classificadas.
Desde o século XII já é possível identificar pessoas cujas ocupações se distinguem do grande número de trabalhadores braçais (e demais grupos de baixo prestígio, despossuídos, mendigos etc.) que formavam a enorme base da pirâmide medieval. 
Conforme esta camada vai se desenvolvendo, vai ficando cada vez mais numerosa e influente. No comércio, na construção, na manufatura, nos serviços burocráticos, são várias as áreas de ocupação que ficam a cargo dessas pessoas. Mas claro, é preciso lembrar que essa história não é simplesmente linear, mas atravessada por refluxos de época em época.  

28 de abril de 2013

EXISTE VIDA LITERÁRIA NA REGIÃO SUL FLUMINENSE?



A pergunta do título não é fácil de responder, dentre outros motivos, pelo fato de que é certo que cada um tem uma concepção própria do que seria o ideal ou o desejável para uma região em matéria de “vida literária”. Para alguns, talvez este ideal seja viver em um lugar cujo índice de livrarias e bibliotecas se assemelhe ao de Paris, cidade que tem a cultura letrada como um de seus orgulhos históricos e como parte de sua própria identidade. Para outros, a constatação de que existam pessoas produzindo literatura e pessoas usufruindo dela talvez já seja um dado suficiente e satisfatório. 
Acredito que a segunda opção seja a mais “realista”, mais “comum” e por ela me pauto.
E, se alguém me fizesse a tal pergunta, arriscaria dizer que nossa vida literária “vai bem, obrigado”. 

26 de fevereiro de 2013

A HISTÓRIA DOS CIDADÃOS UNIDOS x COMISSÃO ELEITORAL FEDERAL


Annie Leonard (Projeto História das Coisas) trata neste vídeo do polêmico tema do financiamento das campanhas políticas. O raciocínio é simples, mas a solução é para lá de complicada. Uma vez que empresas financiam as campanhas com seus milhões, fica difícil para candidatos não apoiados por elas conseguirem vaga nas câmaras ou senado. Por sua vez, causas de interesse da coletividade, mas que vão de encontro aos interesses por lucro das corporações, dificilmente serão aprovadas e sancionadas, afinal, na hora de legislar, votar, aprovar, os políticos precisam cumprir com a palavra que empenharam e não irão querer perder seus ricos padrinhos.
Mas o engraçado nisto tudo é ver que até mesmo nos EUA (país de Annie Leonard), algumas pessoas estão começando agora (mas só agora?) a perceber o quanto o sistema democrático é passível de distorção, o quanto as empresas são quem, de fato, decidem os rumos da nação, definem as ações do Estado, decidem sobre a vida dos cidadãos. A retórica de que a democracia é um sistema baseado na representatividade e promove a igualdade de direitos cai por terra ao menor olhar crítico que se fizer sobre ela.


Depois da tirania neoliberal dos anos 80-90, a crise econômica (na verdade, a falência do sistema capitalista) vai revelando, para quem quiser ver, o funcionamento de sua estrutura e os mecanismos que cria para se perpetuar no poder e causar a ilusão de que é a única forma de organização e produção possível. 
Mas é aquela história, toda mentira, um dia se revela.

Talvez tenha sido Goebbels quem disse "uma mentira dita cem vezes torna-se verdade", enquando Abraham Lincoln (dizem) afirmaria que:"Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar a todas por todo o tempo."

6 de fevereiro de 2013

MAIORIAS E MINORIAS


O assunto que vou tratar aqui é polêmico, o que significa que, provavelmente, muitos interpretarão a sua maneira, de tal modo que o conteúdo principal do texto será desprezado em função de supostas posições que o texto expressaria nas suas entrelinhas. Isto é inevitável, mas mesmo assim publicarei.

A sociedade burguesa é fundada no princípio democrático e, por consequência, no Estado de Direito. A base política que sustenta isto é o executivo, a base jurídica é o judiciário. O legislativo opera entre esses dois polos. O capital, corporificado por empresários, executivos, corporações e instituições de todo tipo, tem papel fundamental na composição e na orquestração das citadas bases.
É preciso lembrar que há várias possibilidades de se pensar o Estado e a Nação. Desde propostas de base liberal, em que o Estado procura intervir minimamente e cuja principal função é facilitar a dinâmica do chamado Mercado, até propostas de um Estado controlador e gestor atento da vida pública.
A proposta de Estado mínimo interessa não só às ânsias de lucro do capital, mas também aos setores médios que operam no plano ideológico para conquistarem espaços e privilégios por meio da oficialização de seus interesses. É aqui que entra a importância, para esses grupos, da jurisprudência e da democracia burguesa e liberal.
Mas para transformar seus interesses em leis que garantam tais privilégios, é preciso antes uma operação de propaganda (ideológica, evidentemente) para disseminar a ideia de que suas reivindicações são mais que plausíveis, justas, éticas e que qualquer pessoa esclarecida não deveria se posicionar contrariamente a tais reivindicações.

10 de dezembro de 2012

MELANCOLIA, de Lars Von Trier

Microrresenha  para lá de  subjetiva sobre o filme de Von Trier ou Apreciações sobre a teoria da narrativa.

Assisti ontem ao filme Melancolia (2011) e a sensação geral que me ficou foi a de que o filme é bonito e impactante, o elenco é competente e estrelado, o roteiro é interessante, mas o resultado final é que a pretensão e a artificialidade pesam mais (e negativamente) do que suas virtudes.
Existem filmes (e livros também) que parecem ser feitos para agradar a crítica, de tal modo que o ritmo, as imagens, as cenas vão surgindo como se já houvesse ali uma metáfora pronta, indicações explícitas dos subtextos, dos níveis de profundidade da obra. É uma espécie de obra aberta invertida. Em vez de o espectador (ou leitor) ir em busca das conotações da obra, a própria obra já lhe dá de bandeja todas suas possíveis aberturas.
Dito de outro jeito, uma narrativa é pensada a partir de situações (ações que geram reações e daí a intriga, o conflito, o humor, o suspense etc.) que se sucedem em direção a um desfecho. Seja o final esclarecedor ou não, é fato que em algum ponto a narrativa acaba (ou pelo menos a narração, como gostam de distinguir os teóricos da narrativa).
Uma narrativa também é, por sua própria economia, sintética e excludente. Por mais que virtuosismos possam querer contestar esta condição (como o Last Days, de Gus Van Sant, que simula ser um filme "sem roteiro"), o que temos nesses casos é a exceção a confirmar a regra. Daí que os personagens, o cenário, os objetos, os diálogos não estão em um roteiro por acaso, ou por um desejo aleatório qualquer, mas são escolhidos e ordenados (montados) para compor o resultado final do tipo de história que se pretende contar.
Acontece que nas últimas décadas incontáveis criadores têm se especializado em elaborar suas histórias já de olho na crítica que sairá nos jornais, revistas ou artigos acadêmicos. A história, então, deixa de fluir em sua naturalidade lógica e passa a ser remontada para atender a leitura dos críticos. E dá-lhe simbologia forçada.