
Se
tem uma coisa que a classe média urbana desconhece, na qual é completamente
ignorante, é o tal do “povo”. E é preciso colocar essa palavrinha entre aspas
porque ela em si não quer dizer coisa alguma. Por povo, ali, deve-se entender a
multidão de pobres e trabalhadores de baixa renda espalhados pelos Brasis de
cima a baixo.
O
termo “povo” é uma dessas palavras-bombril, tem mil e uma utilidades, mas seu
valor é de uma inconstância terrível, variando da positividade emotiva de “somos
um povo alegre” até a negatividade mais rasteira da atemporal “o povo não sabe
votar”. E ainda tem um detalhe: no primeiro caso, o povo somos “nós”, no
segundo, são “eles”.
Mas
eu falava da burrice da classe média urbana em matéria de povo e vou explicar.
O indivíduo que mora em apartamento e estudou em escolas caras só conhece o tal
de povo pela telenovela e pelo telejornal, nas crônicas do Jabor e nos
bons-dias e boas-noites que dá para o porteiro. Nada mais artificial e
enganador para entender o tal do povo do que observá-lo nesses lugares. Na TV e
na imprensa, o povo aparece como um bando de imbecis alienados, festivos em dia
de jogo de futebol, trágicos na entrevista após as enchentes ou ridículos quando
explorados em programas de auditório. Mas esta versão fictícia agrada em cheio
à mentalidade do homem ilustrado, porque este precisa desesperadamente se
sentir diferente do tal do “povo em negativo”, precisa se sentir mais
inteligente, informado e civilizado. Para atender essa fantasia classista a que
precisa se agarrar como o náufrago no pedaço de pau, a imprensa e a indústria
do entretenimento fabricam suas caricaturas para consumo do bom burguês.
Mas
tem também o classe média sensível e “cabeça”, que diz adorar o povo, entendê-lo
e ajudá-lo (só esquece de perguntar se o dito povo está interessado em sua
ajuda). Para este ser de espírito elevado o pobre é um coitadinho, uma vítima
do sistema, um mendigo de tudo: dinheiro, cultura, bom gosto, bons modos. Outra
balela. No seu afã de praticar boas ações ele se junta a outros comovidos filantropos
e vai em busca do zé povinho. Alguns ofertam sopa e cesta básica e vão dormir aliviados, outros acham que levar balé e orquestra para a favela é a maior das
gentilezas. Nada mais ofensivo, arrogante e autoritário do que achar que o que
o pobre precisa é ouvir Tom Jobim ou Vivaldi para virar gente. Na cabeça
esfumaçada da classe média urbana, além das confusas noções que ela tem de
liberdade e conhecimento, fermenta a ideia de que o que o povo mais almeja na
vida é morar no apartamento em que ela mora, estudar em sua escola, comer no seu
restaurante e ver os filmes que ela vê. O ser urbano imagina que tudo o que o
pobre quer é virar ele também um classe média. Nada mais equivocado que isso.
O
pobre quer mais dinheiro sim, quer mais conforto, quer mais comida, diversão e
arte, como diz a música. Mas não a comida a diversão e a arte que são servidas
ao pequeno e grande burgueses. O pobre não quer morar no condomínio de luxo,
não quer ir ao teatro assistir ‘stand up’, não quer ouvir Ivan Lins. Mas o
aburguesado sensível não sabe disso e na sua fantasia apalermada de madre Teresa de
Calcutá humilha, ofende, engessa e rebaixa o pobre com seus eventos, projetos,
com sua retórica de almanaque e sua generosidade inútil.