18 de outubro de 2013

MASSAS ACÉFALAS?



Os protestos de junho geraram uma infinidade de interpretações. Para alguns, houve ali uma revolução radical, para outros, tudo não passa de um ato de rebeldia juvenil sem causa, há ainda quem vê fascismo, alienação, comportamento de ultra-direita...
De fato, como são múltiplas as reivindicações, algumas pontuais outras vagas, como são diversos os grupos participantes, de neo-anarquistas ao chamado "lumpesinato", é mesmo difícil dar uma única explicação para os acontecimentos. E como somos desejosos em atribuir uma causa e um sentido para as coisas, ficamos aturdidos diante de tantas causas e sentidos ou, pior ainda, da ausência deles. 
Mas uma coisa é preciso ressaltar: a manifestação violenta de populares não é algo novo, ela é recorrente nos países ocidentais há muito tempo, principalmente a partir do século XVIII, em que a concentração gradativa de grandes massas nas cidades e a progressiva experiência política foram desenvolvendo uma espécie de pedagogia do uso do espaço público. 
As críticas sobre a ausência de lideranças e de reivindicações pontuais geralmente simplificam a questão reduzindo-a a uma ação alienada e ineficiente. Mas é preciso entender que para além dos mecanismos democráticos de participação (o voto, o abaixo-assinado, a passeata com tema único) existem formas de expressão que transgridem a lógica racional, jurídica e parlamentar. A revolta coletiva, mesmo sem lideranças identificáveis e sem pauta definida, revela algum tipo de inconformismo e de reação aos desmandos do poder.
Seguem abaixo trechos do livro A Cidadania no Brasil, em que José Murilo de Carvalho comenta manifestações violentas no Brasil do século XIX, mas que casam perfeitamente com a descrição dos eventos de junho.
Sobre as revoltas da Balaiada (1838) e da Cabanagem (1835), ele argumenta: 
"Nenhuma das outras [revoltas ] tinha programa, nem mesmo ideias muito claras sobre suas reivindicações. Isto não quer dizer que os rebeldes não tinham discernimento, e que lutaram 
por nada. Lutaram por valores que lhes eram caros, independentemente de poderem expressá-los claramente. Havia neles ressentimentos antigos contra o regime colonial, contra portugueses, contra brancos, contra  ricos em geral." (CARVALHO, 2010, p.70)
Na revolta conhecida como Quebra Quilos (1871 e 1874) "os revoltosos atacaram câmaras municipais, cartórios, coletorias de impostos, serviços de recrutamento militar, lojas maçônicas, casas de negócio e destruíram guias de impostos e os novos pesos e medidas. A população protestava também contra a prisão de bispos católicos, feita durante o ministério do visconde do Rio Branco, que era grão-mestre da maçonaria. Não havia reivindicações explícitas, mas não se tratava de ação de bandidos, de ignorantes, ou de inconscientes. O governo reformista do visconde do Rio Branco ofendera tradições seculares dos sertanejos. Ofendera a Igreja, que lhes dava a medida cotidiana da ação moral; mudara o velho sistema de pesos e medidas que lhes fornecia a medida das coisas materiais. Além disso, introduzira também a lei de serviço militar que, embora mais democrática, assustava os sertanejos, que nela viam uma possível tentativa de escravização. Os sertanejos agiram politicamente, protestando contra uma ação do governo que interferia em suas vidas de maneira que não consideravam legítima." (CARVALHO, 2010, p.71) 
E os mesmos vinte centavos de 2013, foram motivo para distúrbios no século retrasado.
"Em 1880, por causa do aumento de um vintém (20 réis) no preço das passagens do transporte urbano, 5 mil pessoas se reuniram em praça pública para protestar. Houve choques com a polícia, e o conflito generalizou-se. A multidão quebrou coches, arrancou 
trilhos, espancou cocheiros, esfaqueou mulas, levantou barricadas. Os distúrbios duraram três dias. Daí em diante, tornaram-se frequentes as revoltas contra a má qualidade dos serviços públicos mais fundamentais, como o transporte, a iluminação, o abastecimento de água." (idem, p.72-73)
A revolta da vacina (que a mídia e o senso comum atribuem erroneamente à ignorância da população) "foi um protesto popular gerado pelo acúmulo de insatisfações com o governo. A reforma urbana, a destruição de  casas, a expulsão da população, as medidas sanitárias (que incluíam a proibição de mendigos e cães nas ruas, a proibição de cuspir na rua e nos veículos) e, finalmente, a obrigatoriedade da vacina levaram a população a levantar-se para dizer um basta. O levante teve incentivadores nos políticos de oposição e no Centro das Classes Operárias. Mas nenhum líder exerceu qualquer controle sobre a ação popular. Ela teve espontaneidade e dinâmica próprias." (idem, p.73)
Talvez esta lembrança desses fatos passados e seus pontos de convergência com o momento atual possam jogar mais luz sobre este assunto tão nebuloso. 

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